Especialistas destacam investimento na indústria e o fortalecimento do mercado interno como formas de superar a crise

por Daniele Silva última modificação 12/08/2021 15h21
10/08/2021 – As perspectivas da economia mundial e seus rebatimentos no Brasil, no Rio Grande do Sul e no Vale dos Sinos foram apresentados pelo economista Carlos Paiva, coordenador adjunto do mestrado em Desenvolvimento Regional da Faccat, no primeiro encontro da terceira edição do Seminário de Desenvolvimento Econômico de Novo Hamburgo. O painel teve a participação do supervisor técnico do escritório regional do Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (Dieese), Ricardo Franzoi, e mediação do professor da Feevale e vice-presidente do Conselho Regional de Desenvolvimento do Vale do Rio dos Sinos (Consinos), Gabriel Grabowski. Na live, transmitida pela TV Câmara, canal 16 da Claro/Net, e pelo YouTube da emissora, nesta terça-feira, dia 10, os painelistas destacaram o investimento na indústria e o fortalecimento do mercado interno como alternativas para superar a crise e alavancar o crescimento econômico do país.

Promovido pela Comissão de Finanças (Cofin) e pela Escola do Legislativo hamburguense em parceria com diversas entidades, o Seminário de Desenvolvimento Econômico apresenta até o dia 2 de setembro uma série de debates com o objetivo de pensar alternativas aos diversos setores produtivos em meio à crise gerada pela pandemia da Covid-19. Na abertura, o presidente da Câmara, Raizer Ferreira (PSDB), destacou o formato online do evento neste ano, em virtude das normas sanitárias, sem deixar de debater temas de extrema relevância para o município e região. À frente da Cofin, Enio Brizola (PT), reafirmou o compromisso do colegiado. “O seminário traz a oportunidade de debatermos a conjuntura econômica na nossa cidade, a cadeia produtiva e as transformações tecnológicas e digitais, bem como as políticas públicas existentes e as necessárias. Que toda essa discussão se transforme em ações para o desenvolvimento do nosso município.”

“Precisamos ter esperança. Pensar em inovação, mas também em como manter nossas indústrias e serviços. Sabemos da força do nosso povo e dos nossos empreendedores”, enfatizou a presidente do Consinos, que integra 14 municípios da região, Tânia Terezinha da Silva. O reitor da Feevale, Cleber Prodanov, lembrou que a universidade é parceira desde a primeira edição e citou a liderança da Casa em proporcionar a discussão de temas relevantes junto à sociedade. “Estamos aqui para apoiar não só o seminário, mas todas as soluções que possam decorrer dessa atividade. A união entre o poder público, a universidade e a sociedade é fundamental para que possamos trabalhar juntos pelo desenvolvimento local.”

Doutor em Economia, com ênfase em Macroeconomia e Economia Regional, Carlos Paiva discorreu sobre o cenário internacional e as transformações ocorridas desde a década de 1980. “Na maneira como se estrutura o capitalismo moderno, estaremos sempre a um passo de uma crise financeira. A questão é que passamos a ter fluxos internacionais de capital com muita volatilidade e sem nenhum controle. Por isso, não deve haver grandes mudanças no período pós-Covid.”

Segundo o especialista, existem duas formas de se avaliar o Produto Interno Bruto (PIB) de um país. Com câmbio nominal, os Estado Unidos ocupam a primeira posição, com US$ 20,933 trilhões, a China em segundo, com US$ 14,723 trilhões, e o Brasil fica em 12º lugar, contabilizando US$1,434 trilhão. Assim foi estabelecido o G7, grupo dos países mais ricos do mundo, composto por Alemanha, Canadá, Estados Unidos, França, Itália, Japão e Reino Unido. Na outra maneira, calculada pelo próprio Fundo Monetário Internacional (FMI) de acordo com a Paridade do Poder de Compra, a China ocupa a primeira posição, com US$ 24,143 trilhões, os Estados Unidos fica em segundo, seguidos por Índia, Japão, Alemanha, Rússia, Indonésia e o Brasil em 8°, com US$ 3,154 trilhões. Por esse critério, a China superou os americanos já em 2017. O que ocorre, conforme Paiva, é que a China desvaloriza sua própria moeda para poder exportar mais. Disso decorre um enorme fluxo financeiro, depositados em dólar em bancos estrangeiros e paraísos fiscais, que está sempre muito acima da capacidade de investimento no setor produtivo. Ao longo dos anos, o país asiático multiplicou seu PIB, passando de 3,16%, na década de 1980, para 19,37%. No mesmo período, o PIB brasileiro caiu de 4,02%, em relação ao montante mundial, com previsão de 2,28% até 2026.

De acordo com o palestrante, a mudança na hierarquia das grandes potências econômicas mudou o padrão mundial. “É como se tivéssemos retornado aos tempos da hegemonia britânica. O Reino-Unido sempre foi um grande demandante de alimentos e matérias-primas. E um ofertante de bens industriais. Os EUA inverteram a ordem: eles são grandes produtores e exportadores de alimentos. Durante a hegemonia americana, só restava uma alternativa aos países da periferia: industrializarem-se. A China fez a roda da história virar mais uma vez. E está re-agrarizando e re-mineralizando boa parte do mundo. Sua fome de commodities é insaciável. E o Brasil é pródigo em produzi-las. Sob a batuta chinesa, o preço das commodities explodiu.”

O resultado, segundo Paiva, é que a China compra muita soja, minério de ferro e enche o país de dólar. “Quanto mais dólares recebemos, mais o banco central faz reservas e mais ele pode administrar a inflação, soltando reservas para baratear o dólar e fortalecer as importações. Quando isso acontece, compramos mais de fora e o impacto é sofrido pela indústria”, explicou. Hoje o Brasil é o maior exportador de soja do mundo, com duas safras de verão por ano.

Essas mudanças impactaram fortemente o Rio Grande do Sul, em especial a cadeia coureiro-calçadista. Entre 1997 e 2002, o setor era responsável por 27,84% das exportações gaúchas. De 2011 a 2019 esse número despencou para 5,87%. Já o envio de produtos primários, oriundos da agricultura e pecuária, cresceu de 42 para 63% no mesmo período. A soja, com 23,87%, supera a exportação de toda indústria metal mecânica e os demais segmentos seguem deprimidos. Isso fez com que Novo Hamburgo também perdesse espaço na composição do PIB gaúcho. Dentre as alternativas, o professor destaca a adaptação de todo o cluster calçadista, que inclui indústrias de máquinas, papel, química, tecnologia, para produtos que atendam também a demandas atuais. “Não se trata de negar o passado, mas de realizar a adaptação necessária ao presente e ao futuro que já está perfeitamente anunciado. Para isso, é preciso coordenação, concerto (com c!) e ação do setor público para dar conta da readequação da cadeia”, pontuou.

Membro do Instituto do Trabalho, Indústria e Desenvolvimento (TID) Brasil, que trata da revitalização da indústria brasileira, Ricardo Franzoi, acredita em uma globalização que esbarrou nos limites dados pela incompatibilidade entre arranjos produtivos internacionais e nas consequências de uma nova rodada de revolução pela qual passam os avanços tecnológicos e o trabalho. “Essa recuperação pós crise sanitária, demonstra um aprofundamento das desigualdades como a mais clara expressão do fracasso do mercado. Precisamos pensar alternativas para resolver essas desigualdades. Somos, Paiva e eu, de uma corrente desenvolvimentista. Diferente daqueles que buscam apenas o crescimento. Por isso destaco a importância do planejamento e de termos uma política industrial.”

Conforme Franzoi, não se pode pensar em um Estado mínimo, que deixa tudo para o mercado resolver. Há de se fortalecer o consumo interno, porque hoje as empresas sofrem por falta de demanda e a única saída é a exportação. “Se olharmos para o PIB do RS, há estimativa de crescimento em torno de 5%, no entanto a taxa de desemprego cresceu. É uma questão que temos que pensar.”

Sobre emprego, o debatedor diz que a indústria calçadista ainda acolhe 32% da mão de obra formal no Brasil, e o Estado possui 87 mil assalariados no setor, apesar da migração das fábricas para o Nordeste do país. “Segundo dados do Caged (Cadastro Geral de Empregados e Desempregados), Novo Hamburgo tem ainda 7,8 mil empregados no setor. Em relação aos valores dos pisos, nos primeiros quatro meses do ano, 10% desses trabalhadores receberam R$ 1,1 mil, ou seja, um salário mínimo. E a média é de R$ 1,3 mil.” O administrador questiona como uma indústria que existe há tanto tempo e é tão importante para o desenvolvimento gaúcho paga um salário tão baixo. E diz que é preciso refletir se o trabalhador consegue comprar aquilo que ele mesmo produz. Assim, acredita que os sindicatos precisam se envolver na construção e discussão de políticas industriais para se construir postos de trabalhos mais qualificados. Sobre as reformas, trabalhista e da previdência, cita os mais de 30 milhões entre desempregados e pessoas em idade produtiva que não estão buscando trabalho, números aprofundados por essas mudanças.

Para que o país não se transforme em um grande fazendão, Franzoi considera que é preciso seguir o exemplo de municípios que conseguiram transformar sua produção agrícola em produtos com valor agregado, “É possível termos uma política industrial, que se conecte a um projeto econômico da região. O Paiva trouxe informações importantes de como fazer isso. Entretanto, precisamos olhar também para habitação, distribuição de renda e desenvolvimento social e propor políticas que transformem não só a indústria, mas a região como um todo.” Ele lembra ainda que a agricultura tem crédito abundante, taxa de juros subsidiada e outros favorecimentos que precisas ser estendidos à indústria.

 Conforme Carlos Paiva, não existe um único fator para definir a trajetória de uma economia de extrema complexidade como a brasileira. Mas hoje, o Estado investe pouco ou quase nada, as famílias estão desempregadas e depauperadas. Se não existe demanda, as indústrias também não investem. Não há mercado interno e a única opção é vender lá fora, mas isso não é a melhor opção para o Brasil porque a China produz tudo, ela só demanda o que ela precisa, como minérios, petróleo e alimentos. Essa desindustrialização do país impacta diretamente o Vale dos Sinos.

Por fim, o economista destacou a necessidade de um diagnóstico para identificar as fraquezas, com objetivo de projetar correções, e o que há de mais forte no sistema. E sugeriu a criação de câmaras setoriais para análise das empresas e para discutir com o empresariado o projeto de desenvolvimento. Para ele, a universidade tem papel fundamental nesta construção, porém precisa pesquisar colocar os pés no chão e pesquisar o que é importante para a produção local.

Ao encerrar o debater, o mediador Gabriel Grabowski ressaltou a participação do público, com envio de muitos questionamentos e comentários. “Isso mostra que um dos objetivos do seminário foi atingindo, que é justamente o debate e a reflexão. Desta forma conseguimos coletivamente ter leituras sobre esta realidade complexa.”

Sobre o Seminário

O III Seminário de Desenvolvimento Econômico será composto por seis lives. Os encontros acontecerão de 10 de agosto a 2 de setembro, terças e quintas, sempre às 19h. As inscrições podem ser feitas no portal da Câmara de Novo Hamburgo - Ambiente Virtual de Aprendizagem (AVA) da Escola do Legislativo. Para receber certificado é necessária inscrição prévia, que só poderá ser realizada após cadastro no AVA. É possível participar enviando comentários e dúvidas aos debatedores por meio do chat na transmissão pelo Youtube. Confira aqui mais informações e a programação.

Saiba mais sobre as edições de 2018 e 2019 do Seminário de Desenvolvimento Econômico de Novo Hamburgo.