Ato na Praça do Imigrante cobra retomada do CRM e mobiliza comunidade contra feminicídios
Além das vereadoras Daia Hanich (MDB), Deza Guerreiro (PP) e Professora Luciana Martins (PT), o ato contou com a presença dos vereadores Cristiano Coller (PP), Eliton Ávila (Podemos) e Enio Brizola (PT). Ao longo da caminhada, pares de sapatos com manchas vermelhas representaram aquelas que foram assassinadas por seus atuais ou ex-companheiros. Entre elas, Karizele de Oliveira Sena, 30 anos, morta a facadas pelo marido no bairro Industrial, em Novo Hamburgo, no dia 24 de janeiro.
- Novo Hamburgo define ações urgentes para proteger mulheres vítimas de violência
“Quando nós estamos gritando ‘CRM Já’, estamos dizendo que o Centro de Referência para as Mulheres é uma política pública efetiva no combate às diversas formas de violência. Infelizmente, desde 2017 a cidade de Novo Hamburgo não conta com esse equipamento público”, afirmou Luciana Martins, procuradora da Mulher da Câmara em 2025.
Daia Hanich, que é também policial civil, destacou causa choque a violência contra as crianças. “Filhos dessas mulheres estão sendo vítimas fatais. Quando entrei na polícia, em 2017, o Viva Mulher funcionava. Após o atendimento na delegacia e o registro da ocorrência, encaminhávamos as vítimas para lá.”
Deza Guerreiro agradeceu aos homens presentes e conclamou todos a se unirem à luta. “A mulher não é propriedade. Respeitar as mulheres é uma obrigação.” A vereadora lembrou ainda que a violência, por vezes, começa pelos mais vulneráveis, como crianças e animais de estimação.
Cristiano Coller afirmou que o momento é de luto e de luta. “É hora de conscientização dos homens e das mulheres.” O parlamentar ressaltou que o enfrentamento deve se estender também ao combate à violência contra crianças e adolescentes.
Eliton Ávila destacou que o ato é um plantio de semente para a próxima geração. O vereador sugeriu que todos os parlamentares destinem emendas para a construção do CRM, classificando a iniciativa como uma política pública resolutiva.
Enio Brizola manifestou o compromisso da Comissão de Direitos Humanos, afirmando que o colegiado está engajado no combate ao machismo extremado que vem matando mulheres. Segundo ele, há um vazio de políticas públicas em todo o estado.
A defensora da Mulher, Deisi Sartori, afirmou que o feminicídio é a face mais cruel do machismo, mas não é o primeiro ato de violência. “Antes do feminicídio acontecem muitas outras agressões que podem ser evitadas com políticas públicas efetivas.” A promotora de Justiça Roberta Fava informou que já recomendou ao prefeito municipal a retomada do serviço, mas ainda não há medida concreta sobre o retorno do equipamento. “Nunca tivemos tantos casos graves no município. Há necessidade de acolhimento dessas vítimas.”
A advogada Isadora Cunha ressaltou que a retomada do CRM é uma reivindicação antiga. “Quando o Centro funcionava, cerca de 120 casos eram acompanhados por mês, com atendimento em segurança, saúde e assistência social. Não é apenas prender o agressor. É acolher a mulher e dar condições para que ela consiga sair dessa situação.”
Regina Abel, advogada, afirmou que o feminicídio não escolhe classe social. Ela lembrou que todas estão em risco e muitas nem chegam a registrar boletim de ocorrência. Presidente do Conselho Municipal dos Direitos e Cidadania da Pessoa Idosa (CMDCI), Leny Fisch destacou que a violência atinge mulheres de todas as idades.
A presidente da subseção da OAB em Novo Hamburgo, Juliana Martins, afirmou que não suporta mais ver diariamente notícias de mortes de mulheres.
Ursula Gottschald, do Comitê Popular de Mulheres de Novo Hamburgo, questionou por que muitos homens não aceitam a independência financeira e emocional das mulheres. Também criticou o fato de o governador Eduardo Leite não ter assinado o pacto nacional contra o feminicídio.
Representando a Comissão da Criança e do Adolescente da OAB/NH, Dirlene Cunha lembrou dos inúmeros órfãos e das crianças e adolescentes abrigados. Já Magali Silva, da Comissão de Igualdade Racial, lamentou que as mulheres negras sejam as maiores vítimas de feminicídio. “Nós precisamos ter voz.”
Neiva Barbosa, do Sindicato das Sapateiras e Sapateiros de Novo Hamburgo, conclamou os trabalhadores do entorno. “Não esperem que seja sua mãe, sua filha ou sua irmã. Denunciem, procurem ajuda. Em briga de marido e mulher, a gente mete, sim, a colher.” Jaqueline Erthal, presidente do mesmo sindicato, afirmou que as feministas não odeiam os homens, mas defendem a vida e os direitos das mulheres. “É por isso que estamos na rua. Precisamos ensinar nossos filhos a respeitar as mulheres.”
A líder comunitária Rê Domingues ressaltou que a luta é de toda a comunidade e lembrou que muitas crianças têm o futuro destruído ao perderem suas mães. Laudiceia Abreu, do coletivo Mulheres Quebrando Tabus, pediu que todos auxiliem a divulgar o abaixo-assinado pela retomada do CRM.
A suplente de deputada Ana Affonso defendeu que a misoginia seja tipificada como crime no Brasil e alertou para canais na internet que propagam ódio contra as mulheres, muitas vezes patrocinados. Também suplente da Assembleia Legislativa, Tânia da Silva questionou até quando vidas serão ceifadas por essa violência.
Relatora da comissão externa do Congresso Nacional sobre feminicídios ocorridos no Rio Grande do Sul, a deputada federal Maria do Rosário (PT) indagou quantas mulheres ainda poderiam estar vivas. “Somente em janeiro, foram 15 órfãos.” Segundo ela, o estado parece ter se acostumado com a violência contra a mulher, como se o feminicídio fosse um destino traçado.
Na manhã do sábado, enquanto ocorria a manifestação, foi noticiada a morte da 17ª vítima no Estado. Roseli Vanda Pires Albuquerque, assassinada em Nova Prata, era diretora da Secretaria de Esporte e Lazer do Rio Grande do Sul. “Hoje, mais uma vez, a história se repete. É uma mulher que decide dizer não à continuidade da violência. Ela quer ressignificar seu caminho, quer decidir que seus filhos e ela não sofrerão mais aquela violência cotidiana. O feminicídio não acontece de um momento para o outro. Ele é um crescente da violência e pode ser evitado.”
A parlamentar também criticou aqueles que passaram gritando contra a manifestação. “Como será que tratam, em casa, a companheira, a esposa, a mãe de seus filhos? Se aqui, quando temos um microfone, tentam nos desprezar? É pela vida das mulheres que estamos aqui, inclusive por aquelas que já foram mortas e não podem ser esquecidas.”
Ela lamentou ainda a tentativa de silenciamento das mulheres nos parlamentos e apresentou dados preocupantes: há apenas 160 agentes na Patrulha Maria da Penha no estado, para atender todos os municípios; 12 mil homens cumprem medidas de afastamento, mas menos de 900 utilizam tornozeleira eletrônica. A deputada defendeu o uso ampliado da tecnologia, a abertura 24 horas das Delegacias Especializadas de Atendimento à Mulher (Deam) e a capacitação das unidades de saúde para identificar casos de violência.
Por fim, a vereadora Daia Hanich reforçou que é necessário tratar os agressores para evitar reincidência. “Nossa pauta é por uma sociedade mais justa e igualitária.”
Luciana Martins ressaltou que a bancada feminina tem compromisso com a cidade e enfatizou que as políticas para as mulheres só se efetivam quando elas ocupam os espaços de poder. “Independentemente dos partidos, a cidade tem a obrigação de ampliar essa bancada. Somos 53% da população. Precisamos ter sete cadeiras na Câmara em 2028. Assim como temos o compromisso de ampliar a bancada feminina no Congresso Nacional, porque um país democrático trabalha com o princípio da equidade.”
