Seminário de Desenvolvimento Econômico: oficina aborda valores gerados pelo empreendedorismo social

por Luís Francisco Caselani última modificação 18/11/2019 11h55
13/11/2019 – Ao contrário da noção geral de que o sucesso de um negócio está diretamente relacionado a seu valor econômico, no empreendedorismo social outros indicadores devem ser considerados. O objetivo, afinal, vai além do lucro; busca a resolução de um problema a partir de uma inovação. O tema foi abordado pelos professores Daniele de Souza e Pedro Giehl durante o segundo dia do Seminário de Desenvolvimento Econômico de Novo Hamburgo, em oficina sediada no Plenário da Câmara na manhã desta quarta-feira, 13.
Seminário de Desenvolvimento Econômico: oficina aborda valores gerados pelo empreendedorismo social

Fotos: Daniele Souza/CMNH

Pesquisador de Gestão e Empreendedorismo e integrante do corpo docente da Fundação Liberato, uma das instituições parceiras do Legislativo na organização do evento, Giehl conceituou inovação e empreendedorismo social como uma possibilidade de mudar o mundo. “Quando a crise se torna o único consenso, é retrato de que a humanidade está vivendo sua miséria. Um dos grandes desafios da atualidade é mobilizar e formar pessoas criativas e protagonistas sociais, que sejam empreendedoras e capazes de agregar valor”, iniciou.

O professor contou que a proposta do empreendedorismo social surge após uma série de tentativas frustradas, ao longo do século XX, de implantação de sistemas sociais “perfeitos”. “Para ser um empreendedor, você não precisa necessariamente abrir uma empresa. Você pode ter uma atitude empreendedora. O empreendedor social tem foco na resolução das realidades que podem ser alteradas. Inovação social amplia a noção de valor gerado, que passa a ser não só econômico, mas também social, ambiental e cultural. A riqueza não pode mais ser medida restritamente a bens de capital, mas de bem-estar coletivo e inclusão social”, defendeu Giehl.

O pesquisador caracterizou empreendedores sociais como indivíduos que assumem causas sociais como missões. “A tendência é assumir causas possíveis de resolver, conforme suas aptidões e percepção de oportunidades. A finalidade da inovação é gerar valor social, medido pela capacidade das pessoas assumirem controle sobre sua vida”, definiu.

Professora do Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia Sul-rio-grandense (IFSul), outro parceiro do seminário, Daniele instrumentalizou a construção de um projeto empreendedor e disponibilizou orientações para a abertura de uma cooperativa. “Qualquer projeto tem que ser profissional para que dê certo. E esse projeto não pode ser nosso. Temos que transformá-lo em um projeto de todos. Temos que poder sair dele, eventualmente, sem que ele deixe de existir”, explicou Daniele.

Catavida

Os ministrantes da oficina também abriram parte de seu tempo para que dois empreendedores sociais apresentassem suas experiências. Servidora da Prefeitura de Novo Hamburgo, a assistente social Vera Rambo relatou o surgimento do Programa Catavida, projeto que nasceu para resolver uma situação análoga a trabalho escravo pela qual eram submetidos os catadores que trabalhavam na central de reciclagem do bairro Roselândia.

Após a assinatura de termo de ajustamento de conduta com o Ministério Público, a Administração decidiu intervir por meio da capacitação dos profissionais e o subsídio de instrumentos para a criação de uma cooperativa. “Tivemos que apurar o que estava ocorrendo. Os catadores muitas vezes pegavam sua comida na esteira. Essa foi a triste realidade que encontramos e tivemos que enfrentar. Conseguimos colocar os catadores em sala de aula, formação necessária porque eles também tinham que fazer a reconversão da produção capitalista, quanto respondiam a um dono, para um novo cenário, no qual eles se apropriam do processo e são protagonistas, assumido realmente sua trajetória”, resgatou.

Vera compartilhou que, a partir do cálculo do valor que a Prefeitura deixaria de pagar pela destinação dos resíduos separados pelos catadores, eles conseguiram contratar a cooperativa e garantir a remuneração do serviço. “Aquilo passou a ser uma causa. E isso é essencial, nós nos apaixonarmos e nos comprometermos com o outro. Precisamos nos importar com o outro para fazermos a diferença”, disse a servidora. O vereador Enio Brizola (PT) lembrou que a cooperativa está trabalhando para tornar o Programa Catavida uma política municipal, impedindo que seja eventualmente descontinuado.

Villaget

O outro caso apresentado foi o do Instituto Villaget, iniciativa criada em 2003 como um projeto social voltado para a inclusão e capacitação profissional de jovens da Vila Getúlio Vargas, no bairro Canudos. Desenvolvedor da ideia, o designer Mário Pereira utilizou sua expertise no setor coureiro-calçadista para ensinar a modelagem de sapatos. “A Getúlio Vargas era uma vila precária, com muitas necessidades. Nosso objetivo era jogar conhecimento para os jovens, e um ensinava para o outro. Estabeleceu-se um núcleo de capacitação profissional voltado para o calçado”, recordou.

A iniciativa ganhou corpo com a criação dos tênis Villaget, utilizando resíduos de fábricas na confecção dos produtos, em trabalho realizado dentro de microempresas da região. Hoje, a marca já conta com lojas próprias em Porto Alegre e Florianópolis. “Incentivamos os jovens a serem empreendedores, a serem protagonistas de suas próprias vidas. Trabalhamos a emancipação social. O lucro não é apenas financeiro. O social também é responsabilidade do empreendedor. Hoje, somos uma empresa com lucro reinvestido, tendo impacto social”, afirmou Pereira. O trabalho do instituto ainda envolve iniciação digital para crianças e adolescentes e capacitação profissional para mulheres da comunidade.

Saiba mais sobre o Instituto Villaget.

O seminário

O 2º Seminário de Desenvolvimento Econômico de Novo Hamburgo foi organizado no sentido de retomar e aprofundar o debate sobre novas alternativas de crescimento e a cidade que se almeja para os próximos anos. Pautado pela ideia da inovação e empreendedorismo rumo à nova economia, o evento, promovido pela Câmara, por meio da Comissão de Finanças (Cofin) e da Escola do Legislativo, contou mais uma vez com a participação de um leque de instituições parceiras.

Com mais de uma dezena de encontros preparatórios realizados, o grupo de organizadores é formado também pela Associação Comercial, Industrial e de Serviços de Novo Hamburgo, Campo Bom e Estância Velha (ACI-NH/CB/EV), Associação Brasileira de Empresas de Componentes para Couro, Calçados e Artefatos (Assintecal), Comitê de Governança Empreendedora de Novo Hamburgo (Avança Novo Hamburgo), Câmara de Dirigentes Lojistas de Novo Hamburgo (CDL-NH), Conselho Regional de Desenvolvimento do Vale do Rio dos Sinos (Consinos), Fundação Escola Técnica Liberato Salzano Vieira da Cunha, Instituto Brasileiro de Tecnologia do Couro, Calçado e Artefatos (IBTeC), Instituição Evangélica de Novo Hamburgo (IENH), Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia Sul-rio-grandense (IFSul), Prefeitura de Novo Hamburgo, Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae), Universidade Estadual do Rio Grande do Sul (Uergs) e Universidade Feevale.