Programa Catavida completa 10 anos de atividade

por Luís Francisco Caselani última modificação 27/11/2019 18h25
27/11/2019 – Criado em 2009, o Programa Catavida foi pensado como uma alternativa social e ambiental para a coleta de resíduos sólidos em Novo Hamburgo. A iniciativa foi elaborada para romper uma situação análoga ao trabalho escravo na Central de Reciclagem Roselândia e instruir catadores para o cooperativismo. Desde então, o programa se consolidou e conquistou diversos prêmios e financiamentos nacionais. Para comemorar a primeira década de trabalho do Catavida, a Comissão de Meio Ambiente da Câmara (Comam) propôs uma homenagem no início da sessão desta quarta-feira, 27. O colegiado é formado pelos vereadores Enio Brizola (PT), Sergio Hanich (MDB) e Cristiano Coller (Rede).
Programa Catavida completa 10 anos de atividade

Crédito: Kassiane Michel/CMNH

Presidente da Comam, Brizola fez questão de destacar as pessoas que auxiliaram na construção do Catavida. “Este é o programa mais premiado da cidade de Novo Hamburgo. Uma tecnologia social certificada que transformou a vida de dezenas de pessoas. Uma história que significou a quebra das amarras que prendiam esses catadores a um opressor. Essas pessoas estavam submetidas a uma situação de trabalho escravo. A implantação do programa foi o reconhecimento a uma categoria profissional e permitiu a contratação de cooperativas e a remuneração do serviço público que elas prestam. O Catavida garantiu a emancipação de pessoas, que se tornaram donas de suas próprias vidas”, recordou.

Uma das mentoras do programa, a assistente social Vera Rambo resgatou histórias e experiências que incentivaram a criação de uma alternativa. “Acompanhamos situações de famílias que processavam resíduos junto a suas casas. A renda era muito precária naquela época”, comentou. Servidora do Município, Vera sinalizou a importância da transformação do Catavida em política pública, o que está sendo proposto pela Comissão de Meio Ambiente. “Agradeço a sensibilidade da Comam em assumir essa responsabilidade. Perdemos parcerias por insegurança política, por isso a importância de transformar o Catavida em um programa contínuo de inclusão produtiva”, contou.

Vera ainda pediu um resgate do crescimento do projeto. “Precisamos evidenciar que tivemos uma perda da envergadura do Catavida, que declinou nos últimos cinco anos. Suas ações já não são mais tão percebidas pela comunidade. Precisamos recuperar a marca que está presente na memória e no cotidiano das pessoas de Novo Hamburgo. Precisamos dar ao Catavida esse status de política pública organizada”, completou.

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O vereador Felipe Kuhn Braun (PDT) caracterizou o Catavida como a materialização de uma grande ideia. “Sabemos como é custoso o trabalho dos catadores. Mas o Catavida tornou-o mais digno, através do incentivo ao cooperativismo, a capacitação, a educação ambiental e a geração de emprego e de renda. Apoiamos a transformação em política pública, para que seja mantido e ampliado pelos próximos gestores. Sabemos o quanto vocês fazem bem para a cidade e para o meio ambiente”, afirmou.

Presidente da Comissão de Obras, Serviços Públicos e Mobilidade Urbana da Câmara, Patricia Beck (PP) enalteceu o trabalho dos catadores, que tomaram boa parte dos assentos no Plenário Luiz Oswaldo Bender. “São 10 anos de uma construção que pode ter sido iniciada por um governo, mas que alcançou o sucesso pelas mãos de vocês. Os catadores transformaram a vida de muitas pessoas nesse período. Que os 10 anos sejam comemorados por vocês, mas que este seja um momento de muita reflexão para nós, políticos. Vocês são um orgulho para a cidade, pelos prêmios que receberam e pelo exemplo de vida que são”, pontuou.

O presidente da Câmara, Raul Cassel (MDB), destacou as conquistas dos catadores a partir do cooperativismo. “Vi essa história acontecendo, não só pela imprensa e pelas participações na Câmara, mas também nas ruas da cidade, onde uma realidade inevitável é a produção de resíduos. Essas cooperativas vêm trabalhando de maneira séria e organizada, a ponto de serem referência fora do município. Há duas políticas públicas que são certeiras: educação e emprego. Acredito no sistema cooperativo, um sistema de igualdade entre todos e que garante dignidade e possibilidade de escolhas. Parabenizo vocês, que honram essa camisa verde em um trabalho extremamente importante”, elogiou.

Após a entrega do quadro de homenagem, um grupo de cooperativados subiu à tribuna para ilustrar a mudança que o Catavida trouxe às suas vidas. A catadora Orildes da Silva lembrou como era o trabalho para a antiga associação que operava na Central de Reciclagem Roselândia. “Atuei lá por três anos. Fiquei apavorada. Para nos alimentarmos, pegávamos comida direto do lixo. Era muito difícil, era um trabalho escravo. Agora, na nova cooperativa, nós evoluímos”, ressaltou.

Há 7 anos vinculada à cooperativa Coolabore, Tássia Rodrigues encontrou na reciclagem uma forma de levar sustento para seu lar. “Hoje existem mais de cem famílias hamburguenses que tiram sua renda do reaproveitamento de resíduos. É assim que conseguimos levar um alimento digno para as nossas casas. Sou muito grata pelo meu emprego. O Programa Catavida nos capacitou para trabalhar. Hoje, o catador tem um vínculo com a comunidade. Uma parceria, ensinando o descarte correto do resíduo. O serviço na cooperativa é árduo, mas é também digno e honesto. Temos que andar junto, porque ainda há muito o que avançar”, reforçou.

Janete da Silva lembrou as dificuldades iniciais do trabalho, mas destacou os avanços conquistados e o orgulho que tem da profissão. “É muito gratificante para nós, catadores. Peço que votem pela continuidade do Catavida”, solicitou. Alessandro Alves definiu a criação do Catavida como um marco para a cidade. “Quem integra o programa sabe a diferença. Mas precisamos continuar, fortalecer. Hoje, conseguimos separar de 7 a 10% dos resíduos. Então há muito o que avançar. Queremos ampliar o Catavida para cobrir todo o potencial que nós temos e continuarmos sendo exemplo para outras cidades. São muitas as pessoas beneficiadas com o programa”, apontou.

Apoiadora do projeto, a psicóloga Maria Isabel Lima agradeceu a importância da parceria com as cooperativas. “Elas apostaram no programa, possibilitando que a iniciativa saísse do papel e alcançasse o tamanho que possui hoje”, enfatizou. Embora sua transversalidade, o Programa Catavida é estritamente ligado à área de desenvolvimento social. Titular da pasta no Município, o secretário Roberto Daniel Bota parabenizou os catadores, mas aproveitou o espaço para desabafar sobre as dificuldades financeiras de manter as diferentes atividades socioassistenciais. “Não recebemos repasses federais desde 2017. A assistência social está sendo esquecida e desmantelada, sendo mantida exclusivamente por recursos municipais. Precisamos do apoio e entendimento da nossa comunidade”, pediu o gestor.

Bota finalizou sua fala exaltando os profissionais que promovem as ações de reciclagem em Novo Hamburgo. “O que seria da nossa cidade sem vocês? É um trabalho que teve início há 10 anos e no qual já notamos uma grande diferença. Mas sabemos que muito tem que ser feito. Vocês nos ensinam o que é a gestão ambiental. Saibam que o trabalho de vocês é primordial no nosso município”, emendou. A homenagem foi encerrada com uma apresentação do coral do Catavida.

O programa

O Catavida foi criado em 2009 como um programa de gestão social de resíduos. A alternativa foi pensada após intervenção junto à Central de Reciclagem Roselândia, rompendo um ciclo de atividades análogas ao trabalho escravo. O processo de criação do Catavida foi detalhado por uma de suas mentoras, Vera Rambo, em oficina sobre empreendedorismo social realizada durante o 2º Seminário de Desenvolvimento Econômico de Novo Hamburgo.

Os objetivos do programa eram promover a organização social emancipatória, sensibilizar a sociedade sobre a destinação de resíduos e a valorização do trabalho dos catadores, implementar a coleta seletiva solidária no município e instalar empreendimentos produtivos e coletivos. Em junho de 2009, teve início a capacitação da primeira turma de catadores, provenientes da antiga cooperativa que operava no bairro Roselândia. O curso estimulava a organização de grupos com base nos princípios da economia solidária e oportunizada assistência técnica e incentivo à formação de redes de comercialização.

Capacitados e agora vinculados à cooperativa Coolabore, os profissionais voltaram à Central de Reciclagem em 2010 após a conclusão de obras determinadas por Termo de Ajustamento de Conduta, garantindo melhores condições de trabalho. No mesmo ano, começaram a ser contemplados catadores autônomos, que realizavam a coleta no Centro e em bairros adjacentes. Até o final de 2013, mais de 250 pessoas já haviam concluído a capacitação. O programa permanece em expansão. Além do projeto-piloto de coleta seletiva na região central da cidade e a implantação de uma unidade na Vila Odete, em setembro deste ano uma nova sede foi inaugurada no bairro Industrial.