Coletivos destacam desigualdades entre gêneros e combate à violência contra a mulher

por Jaime Freitas última modificação 10/03/2020 14h06
09/03/2020 - A convite do vereador Enio Brizola, o Coletivo Feminista Elza Soares e o Grupo Mulheres na Resistência, ambos de Novo Hamburgo, usaram a tribuna durante a sessão da Câmara desta segunda-feira, 9, para fazer um relato sobre a forma como a mulher é vista e tratada na sociedade, das distorções políticas, trabalhistas e sociais entre gêneros e destacar a defesa e o combate à violência contra a mulher.
Coletivos destacam desigualdades entre gêneros e  combate à violência contra a mulher

Foto: Maíra Kiefer/CMNH

O Coletivo Feminista Elza Soares foi criado em outubro de 2018 com a proposta de quebrar padrões, dar voz às mulheres e conscientizar a sociedade sobre temáticas como violência e equidade de gênero. Para isso, além de reuniões internas, o grupo também promove debates, estudos e palestras. A presidente do coletivo, Eduarda da Silva, ocupou a tribuna para falar da ocupação dos espaços públicos pelas mulheres e das dificuldades que elas enfrentam no dia a a dia.

“As histórias das cidades são produtos das percepções masculinas. Durante os anos 1970, mulheres urbanistas começaram a levantar novas teorias e projetos sobre esse tema. Isso só se tornou possível graças a encontros interdisciplinares, de mulheres dispostas a pensar em uma cidade mais feminina, uma cidade onde há vida sem violência para meninas e mulheres. Cidades que não tenham catracas impossíveis de passar com bebê nos braços. Sem ruas que precisam ser evitadas, pois são muito escuras. Sem pontos de ônibus angustiantes porque sabe-se que em locais assim corre-se perigo”, relatou Eduarda, que alerta que a realidade é outra e precisa ser enfrentada. “São notórios casos, aqui em nossa cidade, de passarelas marcadas pelo descaso de governos onde ocorreram inúmeros estupros. Imaginem-se estar em um vagão de trem cheio de homens com alguns te desrespeitando, ter de fazer mudanças em trajetos diários para evitar ser seguida, atravessar a rua quando se depara com uma construção ou se aparece um homem que pareça perigoso. Esses são alguns dos fatores que iniciam uma cadeia de inseguranças, ansiedades e temores entre as mulheres. Assim experimentamos diariamente parte do espaço público das cidades, dos territórios e das ruas. O direito a ser parte ativa do espaço público é uma luta histórica das mulheres no mundo todo, não só no Brasil. A conquista das ruas tem sido crucial para visibilizar demandas e exigências das mulheres, das que lutaram e das que lutam para exigir o fim da precarização em suas vidas E é sobre isso que viemos tratar hoje”, defendeu.

Carla Teixeira, do Grupo Mulheres na Resistência, de Novo Hamburgo, propôs uma reflexão sobre o Dia Internacional da Mulher. “Ontem foi 8 de março, e algumas pessoas me perguntaram se deveriam me parabenizar ou o que deveriam dizer. Recomendei que dissessem a todas as mulheres: boa luta. Não precisamos ser cumprimentadas por algo inerente a qualquer ação nossa, ou mesmo inerente a nossa vontade. Mas lembramos com orgulho das lutas já travadas por nossas ancestrais, lembramos dos nossos “parcos” direitos, mas há muito custo conquistados. E sabemos da luta que travamos e sabemos da luta que as próximas gerações precisarão travar para que tenhamos um mundo com justiça social." 

Ela explicou que o coletivo de mulheres existe desde 2018 e que debate, organiza ações e abarca outros grupos semelhantes da cidade. Munida de dados estatísticos, Carla exibiu os números que escancaram a desigualdade. "Segundo dados do IBGE, em 2018, a divisão sexual do trabalho estabeleceu que nós, mulheres, trabalhamos em média 21,3 horas semanais em atividades domésticas contra 10,9 dos homens. Ao mesmo tempo, no final de 2019, a taxa de desemprego dos homens ficou em torno de 10% enquanto que a nossa chegava a 13,9% e recebíamos em média 76% dos salários dos homens para o mesmo tipo de trabalho. Não há como não se deixar afetar ainda mais quando falamos sobre as mesmas taxas junto da população negra, sobretudo das mulheres negras, que são expostas às piores condições de trabalho e a mais árdua retirada de direitos, uma vez que sabemos bem que a pobreza tem endereço e raça bem definidos", acrescentou. Ela trouxe ainda informações do Relatório da Comissão Externa de Feminização da Pobreza, do Senado Federal, que apontam que o percentual de mulheres que se concentra em ocupações precárias (61%) é 13% superior ao de homens neste mesmo contexto e, no caso das mulheres negras, a proporção é de 71%.

Ao término de sua fala, Carla abordou a violência sexista, que, segundo o Ministério da Saúde, fez uma mulher vítima de agressão a cada minuto no Brasil no último ano, em sua maioria sofrida nas relações de proximidade familiar. "Entre nós, as mulheres negras são ainda mais atingidas. Segundo o Atlas da Violência 2019, entre 2007 e 2017, em termos absolutos, enquanto a taxa de homicídios de mulheres não negras teve crescimento de 1,7%, o de mulheres negras foi de 60,5%. Só neste início de 2020, já somamos 157 vítimas no nosso país. Vivas nos queremos!", encerrou.

Após a fala das convidadas, o vereador Enio Brizola manifestou-se, afirmando a necessidade de resistir no atual momento de retirada de diversos direitos sociais no país. “É preciso sim, resistir. De fato, há um avanço do feminicídio. Até parece que há no país uma licença para matar e isso é vergonhoso para todos nós, como sociedade. Quero saudar essa brava luta que vocês, desses dois coletivos, fazem. É sim um momento de reflexão e é importante que tratemos desse assunto aqui em nossas sessões. Estamos e continuamos na luta e na parceria em defesa dos direitos das mulheres”, enfatizou o parlamentar.


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