Câmara de Novo Hamburgo promove reflexão em alusão ao Dia da Consciência Negra

por Tatiane Souza última modificação 23/11/2021 17h48
22/11/2021 – O Brasil celebrou neste sábado, 20 de novembro, o Dia Nacional da Consciência Negra. A data, comemorada há 50 anos, relembra a morte de Zumbi dos Palmares, importante personagem da resistência à escravidão no país, e marca a luta por direitos e igualdade racial. Para ampliar a reflexão sobre o movimento negro, a Câmara de Novo Hamburgo recebeu nesta segunda-feira, 22, autoridades e representantes de coletivos para falar sobre o assunto. O convite partiu do presidente do Legislativo, Raizer Ferreira (PSDB).
Câmara de Novo Hamburgo promove reflexão em alusão ao Dia da Consciência Negra

Foto: Daniele Souza/CMNH

Ilson Silva – coordenador de políticas públicas de promoção da igualdade racial (Secretaria Municipal de Desenvolvimento Social); Zé Renato de Oliveira – radialista de União FM e jornalista na Diretoria de Comunicação Social (Prefeitura de Novo Hamburgo) e Roselaine Domingos de Castro Diaz – Coletivo de Professoras Pretas fizeram uso da palavra para fazer importantes considerações sobre o assunto. Os vereadores Raizer Ferreira, Enio Brizola (PT), Gerson Peteffi (MDB) e Felipe Kuhn Braun (PP) também se pronunciaram sobre o assunto.

Debate e reflexão

Estamos aqui para chamar a sociedade para fazer movimentos antirracistas, para desaprovar ações que, muitas vezes, passam despercebidas. O racismo, o julgar, o ofender: isso queremos acabar na nossa sociedade. Estaremos em cima das pessoas que têm esses atos e também da justiça para cobrar àqueles que praticam esses atos. Ainda temos que mudar muito a nossa cultura”, refletiu o presidente Raizer Ferreira.

Enio Brizola saudou a tribuna de honra e os representantes dos movimentos presentes no plenário. “Essa data é lembrada em atos realizados em todo o Brasil. Mas não vou dizer que ela é celebrada, porque temos a redução de políticas públicas em um momento em que o racismo estrutural e sistêmico cresce no Brasil e no mundo e que a intolerância e a violência contra o povo negro avança, tendo muitas mortes e assassinatos, uns mais destacados que outros. Milhares de negros são assassinados por ano. O negro é o povo que mais é morto, perseguido, discriminado e que, quando tem uma conquista importante como a questão das cotas raciais dentro das universidades, umas das mais importantes políticas públicas desses 50 anos, é desvalidada".

Brizola destacou que a fundação e o desenvolvimento do Brasil foi feita com o trabalho dos negros trazidos em porões de navios para serem escravizados nas enormes plantações. “Como dói ser discriminado e não estar liberto”, apontou o parlamentar. Ele lembrou que datas como o Dia da Consciência Negra devem servir para que seja realizado um momento de reflexão do que parlamentares e gestores públicos estão fazendo em defesa da inclusão e da promoção da igualdade racial. “O povo negro tem muita história e cultura para nos mostrar. Que possamos propor uma semana intitulada Semana da Consciência Negra nesta Casa. Um gesto grandioso que depende das nossas assinaturas e que pode promover debates, quem encham este plenário. A população negra também constrói diariamente a riqueza desta cidade. Por mais inclusão, por menos racismo, por mais humanidade”, finalizou o petista. 

Gerson Peteffi falou sobre inclusão. “Trabalhei mais de 30 anos como servidor público na área médica, com comunidade de bairros eminentemente negra. O vereador falou sobre questões rotineiras e de saúde pública que envolveram a pessoa negra durante todo esse tempo. “O meu crescimento profissional e de caráter foi junto da população negra desses bairros”, destacou. 

Felipe Kuhn Braun destacou que o Dia da Consciência Negra marca uma história de lutas, dificuldades, tantos sofrimentos. "Temos de rememorar essa data. Temos de trabalhar políticas públicas que possam melhorar essa situação, eximir o racismo e o preconceito de toda ordem contra o povo de origem africana. E nós somos essencialmente africanos, já que 54% dos brasileiros têm raízes africanas. Me causa estranheza alguns debates ligando a redenção que a monarquia teve com a abolição da escravatura. Na verdade, infelizmente, foram responsáveis por ela. Uma vergonha da nossa história brasileira e gaúcha. Nós brasileiros temos muitas dificuldades em lidar com a nossa história, não revisamos, não corrigimos, não somos uma sociedade que fiscalize, puna e revise seu passado e o seu presente, daí problemas como o racismo, que é muito forte, persistem e até aumentam”, disse.

O coordenador de políticas públicas de promoção da igualdade racial, Ilson Silva, começou seu discurso afirmando a importância de conhecer a pauta e debatê-la com a comunidade hamburguense. “Sou um preto descendente de quilombola. Não serei o primeiro e nem o último a lutar pela criação de políticas públicas. Elas são importantes porque inserem e dão espaço para os negros na sociedade brasileira”, salientou. Ele fez um breve debate em relação à consciência humana e consciência negra e destacou a importância do 20 de novembro pra refletir o papel do negro na sociedade, o que ele já construiu e o que tem a oferecer na continuidade. “África é o berço humano, então a valorização de 54% desse povo negro que habita o Brasil está sendo muito pouca, e a nossa luta é grande ainda. As cotas são o começo e o mais importante porque faz um reparação e dá oportunidade do negro ascender”, apontou Silva. Ele ainda destacou que entre os parlamentares da Casa não há nenhum negro. “Temos de investir mais e criar mais políticas públicas para esse inicio de construção”, disse. 

Zé Renato de Oliveira, que é radialista da União FM e jornalista na diretoria de Comunicação Social da Prefeitura de Novo Hamburgo, destacou a luta pela equidade e igualdade que os negros travam no Brasil diariamente. “Nossos irmãos negros foram arrancados da África de qualquer forma. Cinco milhões de escravos atravessaram os portos e chegaram ao Brasil tratados como animais. Esse racismo ainda continua no nosso país. A Lei Áurea foi assinada para refletir uma mudança no sistema de trabalho no mundo, que veio com a revolução industrial da Inglaterra. Se não fosse por isso, os barões do café e da cana de açúcar iriam continuar escravizando, sim. Não foi benevolência da Lei Áurea”, explicou. 

Oliveira apresentou dados esclarecendo que o negro tem a menor renda, morreu mais durante a pandemia e também pela mão do Estado. “Eu poderia falar leve hoje, falar bonito, mas nós, pretos, solicitamos equidade para depois falarmos em igualdade. Como vamos falar em meritocracia com um jovem negro de favela? Este Estado precisa tratar os pretos com equidade e politicas públicas para que, daqui cem anos, algo mude neste país. Para que sejamos realmente iguais. O preconceito está impregnado no nosso sangue e na nossa cultura. Vim hoje tocar em um tema extremamente importante e de arrancarmos da sociedade o racismo. A consciência tem de ser diária, no ato, não adianta discurso bonito, eu quero ver na prática. Viva o povo preto”, disparou o comunicador, que ainda divulgou o canal no Youtube no qual aborda diversos tópicos relacionados aos negros. 

Representando o Coletivo de Professoras Pretas, Roselaine Domingos de Castro Diaz usou a tribuna para também discutir aspectos importantes e que dizem respeito à representatividade, o espaço ocupado pelos negros nas salas de aula, nos consultórios médicos, odontológicos e na política, por exemplo. “Peço licença a minha ancestralidade, eles que lutaram e fizeram um grande movimento para que hoje eu estivesse aqui, porque durante muito tempo os negros e negras foram impedidos até mesmo de frequentar as escolas. Se não tivesse luta naquela época, hoje eu não seria professora”, destacou. Ela contou que o Coletivo nasceu no Vale dos Sinos e atualmente possui cerca de 150 professoras pretas do Brasil todo. Roselaine refletiu sobre a importância e a necessidade das cotas e indagou se Novo Hamburgo usa deste instrumentos nos concursos públicos que realiza. Também questionou se na secretaria de educação há um grupo que trabalhe com as questões étnicas (negros, índios, ciganos, etc) e suas relações com as pessoas. “Por que não é contado que quando os imigrantes alemães chegaram aqui já tinham negros morando? Deixo algumas provocações para que possamos pensar em políticas públicas que possam fazer a diferença em Novo Hamburgo. Temos muitos projetos, mas que não são políticas. Eu tenho certeza que o caminho é a educação, passa pela educação infantil e vai até a universidade”. A professora concluindo dizendo que sua fala não é vitimismo, mas a realidade.

Veja as falas na íntegra


Dia da Consciência Negra

A sugestão do 20 de novembro como o Dia da Consciência Negra partiu de um grupo de universitários gaúchos em 1971. O objetivo dos jovens era encontrar uma data que melhor representasse a luta do povo negro e estimulasse reflexões sobre as questões raciais. Em detrimento do 13 de maio da Lei Áurea e a ideia de liberdade concedida, optou-se pela referência à memória de Zumbi dos Palmares e à liberdade conquistada. Líder de um quilombo que resistiu por quase um século e chegou a reunir cerca de 20 mil habitantes, Zumbi foi assassinado em 20 de novembro de 1695, um ano após a destruição da comunidade onde viveu. 

Celebrada desde 1971, a data de seu falecimento foi oficializada como o Dia Nacional de Zumbi e da Consciência Negra em 2011, pela caneta da então presidente Dilma Rousseff. Este ano, o Senado aprovou projeto de lei que declara o dia 20 de novembro feriado nacional. A matéria aguarda discussão na Câmara dos Deputados.